segunda-feira, 14 de junho de 2010

O tempo passou. E a Casa Estrela não mudou





Bacalhau: ao gosto do cliente
Panelas e pratos: variedade



Vieram os pegue-pagues, e ele deixou passar.

Vieram os mercadinhos, e ele deixou passar.

Vieram os mercados, depois os supermercados. Estamos na era dos hipermercados, e a Casa Estrela continua como sempre esteve, desde o momento em que abriu as portas de suas instalações próprias, em 1960, na esquina da Avenida Riachuelo com Rua Santos Dumont, em Maringá. Então, ela tinha três anos de existência, e ficava do outro lado da rua, funcionando num prédio alugado. Prédio, não: casinha de madeira.

João da Silva, o fundador, envelheceu ¿ tem 87 anos - e perdeu a conta de quantos milhares de quilômetros percorreu atrás do longo balcão de madeira para buscar os produtos solicitados pelos clientes, que atende cara a cara, olho no olho.

É preciso fazer uma ressalva na afirmação de que a Casa Estrela continua como sempre esteve: assim como o fundador, ela também envelheceu, paredes e móveis requerem reparos e pintura urgentes, e, assim como ele, manteve-se fiel ao estilo de um estabelecimento que as novas gerações desconhecem: os secos & molhados, a loja que vende de tudo um pouco. Quando a Casa Estrela abriu as portas havia somente dois estabelecimentos similares em Maringá ¿ a Casa Paraná e a loja do senhor Ariosto, na Avenida Brasil.

E lá estão, logo na porta de entrada, um torrador de café, uma plantadeira, pás, enxadas, cordas, arames; mais adiante, distribuídas em prateleiras de madeira que se esforçam para se manter em pé, material e equipamento de limpeza misturados a chapéus e alimentos; mais ao fundo, copos, pratos, panelas de alumínio e ferro, torneiras e acessórios para reparos domésticos.

Atrás do longo balcão, que percorre em L toda a extensão interna do estabelecimento, predominam comida e equipamentos de ferragem. E tem carne seca. E tem, ora pois, bacalhau, vendido em nacos, pois essa é uma autêntica casa portuguesa, com certeza.

João da Silva nasceu em Mação, município ¿ hoje com 2,7 mil habitantes ¿ no centro de Portugal, e mantém o sotaque. E essa origem é responsável pela assiduidade dos portugueses natos que frequentam a Casa Estrela todos os dias, de manhã e à tarde, de segunda-feira a segunda-feira ¿ pois esse estabelecimento não sabe o que é fechar as portas, seja final de semana, seja feriado. A única concessão que permite nesses dias é encerrar o atendimento mais cedo. Em vez das 19 horas, às 13. Abre sempre às 8.

Quando a Casa Estrela veio ao mundo tinha como vizinhos, do outro lado da Avenida Riachuelo, Alvaro Giovanini (hoje funciona lá uma farmácia) e uma casinha de madeira também do outro lado. Onde está o canteiro central da avenida era um sugadouro de carros e carroças que se aventuravam a percorrê-la nos dias de chuva: a concavidade do terreno atraía fatalmente os veículos, que só saiam arrastados por tratores.

Na tarde de terça-feira, quando a reportagem de O Diário esteve na Casa Estrela, chovia forte, e o senhor João se lembrou da estrutura subterrânea que o asfalto esconde: uma grossa camada de pedra. ¿Não fazem mais asfalto assim, não fazem¿, disse. O asfalto foi aplicado durante a primeira gestão de João Paulino na prefeitura.


Reportagem José Pedrialli/DNP
Fotos Rafael Silva/DNP

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